sábado, 6 de março de 2010

GEOMETRIAS NÃO- EUCLIDIANAS

Silêncio de cavernas espectrais, solidão...

água pingando, eco...

silêncio rápido...

angústia gritando no peito.

uma vela assusta a sombra,

e me revela o avesso de mim:

sou um segmento de reta

em busca não-euclidiana de sua paralela

no infinito

domingo, 27 de setembro de 2009

RESENHA: INSTINTO -ANTONY HOPKINS EM MAGISTRAL 'INCORPORAÇÃO'

Em mais uma interpretação magnífica de ANTONY HOPKINS, o filme INSTINTO é para ser degustado e revisitado em várias sessões.

Basicamente, o tema tratado diz respeito àquilo que o homem perde quando a razão se torna sua única linguagem com o mundo.

HOPKINS interpreta um antropólogo que se embrenha nas florestas africanas para estudar os gorilas. Aos poucos, no entanto, vai se despojando de sua atitude científica diante do objeto estudado, para se deixar permear pelos elos de solidariedade com os animais e o ambiente: elos que existiram no passado atávico da espécie humana e que se perderam com a chamada “civilização”.

O antropólogo, após se dar conta disso, passa pela traumática experiência da violência do homem contra os animais... a quem tenta defender e, por sua vez, por quem é igualmente defendido.

Ser tão profundamente recebido no seio de outra espécie transforma o antropólogo em alguém que acaba por perder os laços com a sua própria espécie, razão pela qual ele emudece: a negação da linguagem é a marca mais evidente da ruptura com o outro civilizado.

O resgate transformador da linguagem negada se dá com um jovem psiquiatra – não por acaso, negro – brilhante, ambicioso, cheio de valores civilizados, que, por sua vez, resgata em si também a pura e simples capacidade de se identificar com o outro e de se descobrir também um doente da civilização.

Um filme inesquecível, para ser aplaudido de pé.

REALIDADE VIRTUAL

Vivo no avesso de mim.
Apenas minha turbulência dá notícia de que estou viva.
Tanto eu quis aprender a serenidade!
Mas a vida já se faz tarde, e ainda há tanto por fazer...

Revisito com freqüência meu passado,
E minhas cicatrizes sangram como feridas em seu estado original.
Nas minhas memórias ainda te dou vida:
Brinco de deus,
e conduzo a matriz da tua realidade
por desdobramentos diferentes do que foram...

Tenho saudades do que não vivemos...

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O MOVIMENTO DIALÉTICO E OS NÁUFRAGOS DO DESESPERO

MOVIMENTO I – O DESESPERO DAS QUESTÕES INDECIDÍVEIS – AS APORIAS:


Quem falou de liberdade?
Alguém falou em liberdade?
O que é liberdade?


Seria sentir-se para além da opressão?
Seria desobrigar-se do mundo?
Seria estar livre da contingência?


Quando eu diria: “estou livre”?
Quando, liberta de um peso, um suspiro de alívio perpassasse a minha alma?

Quando,em um instante de introspecção, um suspiro de paz se fizesse presente?

Quando vejo minha gata dormindo, tenho a sensação de que ela é livre...
E que em seu sono, pode habitar qualquer mundo e ainda assim, estar sempre em paz...


Há liberdade na morte?
Há paz na morte?
Haverá uma relação entre liberdade e paz?

Pode haver um mundo regido por leis necessárias e simultaneamente, pode haver liberdade nesse mundo?

Ah, meu Deus!

Por que não bato com a cabeça na parede
E acabo de uma vez com isso?


MOVIMENTO II – A ORAÇÃO DO NÁUFRAGO:

Não me abandone.

Estenda sua mão para que eu não desista.

Não quero que meu fim seja assim: no desamparo absoluto das questões mais importantes.

Seja lá quem você for, preciso de sua mão diáfana, para não estar –logo mais – soterrada sob o mais absoluto desespero...


MOVIMENTO III – AS TENTATIVAS DE RESGATE:


TESE 1:

Houve uma escolha antes do Tempo. Você contemplou as verdades eternas e escolheu um destino a cumprir que se submeterá, no plano da contingência, a leis necessárias.

Objeção: silêncio.

TESE 2:

Você recupera sua liberdade na medida em que conhece as razões. Ao se libertar da servidão em relação à exterioridade, você interioriza as causas de seu existir e passa a desejar aquilo que não se submete à contingência. A sua mente em união com a Natureza Naturante abre o caminho para o retorno ao seio do incondicionado.

Objeção: silêncio

TESE 3:

Seja qual for o desdobramento que a História imponha à humanidade, todas as etapas servem à manifestação do Espírito Objetivo ou do Absoluto no mundo. O Espírito se manifesta na própria História.

Objeção: silêncio.


SÍNTESE DIALÉTICA:

Ao nos submetermos às leis necessárias no mundo da contingência, estamos paradoxalmente retornando ao incondicionado.

Reconhecer que somos parte de um projeto que nos transcende enquanto indivíduos, confere sentido à orquestra.

Enquanto seres que transitam entre as mutações da contingência, somos seres que cumprem um papel na cena cósmica - não sujeita a qualquer determinação.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

ANTES DO PONTO ZERO


Antes do quadro, a tela em branco.
Antes do poema, a folha em branco.
Esse instante que antecede o marco zero de uma obra é a plenitude,
porque todas as possibilidades estão presentes:
o ser e o nada em confluência...

sábado, 11 de julho de 2009

O SER EM ESTADO LÍQUIDO

Assim é: meu ser se desmancha e se derrama sobre a superfície do mundo, como se eu houvera atingido o estado líquido da essência possível. Não tenho mais unidade enquanto um eu; esse pronome do caso reto, aliás, já não faz qualquer sentido... No estado líquido é impossível ter contornos definidos, algo que me delimite em relação àquilo que seria o “de fora”. Em estado líquido eu sou o espaço e as coisas onde estou. O mundo me confere forma; as coisas são em mim. E eu assumo a condição de uma consciência oceânica: densa, profunda, poderosa e controlada. Pura força oculta. Movimento que se dá em tudo de forma não testemunhável. O que faço agora é uma tarefa quase sem sentido: tentar dizer o indizível - aquilo que já está para além das palavras, posto que inútil significar um mundo que já não tem limites...

domingo, 24 de maio de 2009

REFLEXÕES

Apenas as vidas incompletas podem ansiar pela completude. (Se tudo já estivesse perfeito, quem buscaria sentido para as coisas ?)
Diríamos que, dentre todos os homens, é o filósofo aquele que mais se coloca sob o signo de Penia - tal como ensina Platão no diálogo O Banquete - e que sente com intensidade máxima sua condição existencialmente indigente.
Há, portanto, em função disso, um impulso por dissolver essa indigência numa plenitude não-sujeita às flutuações temporais. Nisso se revela um segundo apelo da natureza humana: ela se põe na contingência, mas anseia pelo que é permanente. Esta é a razão pela qual Eros (que é princípio de ligação que permeia tudo o que existe) nos leva à contemplação do Bem Supremo: a cada "estrato" da realidade fenomênica que é vencido, vamos sendo quindados a zonas do real cada vez mais imateriais, onde a temporalidade já não exerce o seu domínio e onde é possível vencer a transitoriedade. É claro que nisso se descortina um prazer: aquele que remete à paz, à serenidade ou, no dizer dos céticos e epicuristas, a uma ataraxia - ou seja - à tranquilidade do espírito em relação às paixões.
Herbert Marcuse, na esteira do pensamento de Freud, interpreta este anseio pela tranquilidade como um retorno à condição do inorgânico, portanto, algo que se assemelha à pulsão de morte.
Diríamos que tal interpretação mutila o homem, fazendo deletar de sua natureza algo que lhe é tão inerente quanto buscar explicações lógicas e racionais para as coisas: a de que há um apelo inexorável a especular sobre realidades transcendentes.
Lembramos aqui as palavras de Diotima, no diálogo O Banquete, quanto à sabedoria e à ignorância. Ao provocar Sócrates quanto ao que ele pensa ser uma coisa e outra,e se ambas são conclusivamente excludentes, ela responde que há entre uma e outra "o opinar certo" que é um elo de ligação entre a sabedoria e o entendimento. Em palavras textuais:
"O opinar certo, mesmo sem poder dar razão, não sabes, dizia-me ela, que nem é saber - pois o que é sem razão, como seria ciência? - nem é ignorância - pois o que atinge o ser, como seria ignorância? - e que é, sem dúvida, alguma coisa desse tipo a opinião certa, um intermediário entre o entendimento e a ignorância."
Ora, se todos os povos sobre a face da Terra desenvolveram algum tipo de pensamento sobre realidades transcendentais, há algo na natureza humana que - tal como um centauro - aponta sua seta nessa direção: se ainda não é plenamente racionável (metade cavalo) não é, de forma alguma, alheia à natureza do homem (metade humana).
Assim sendo, amordaçar a alma inquieta do homem e negar a ela a possibilidade de pertencer a um projeto cósmico do qual ainda nada podemos efetivamente saber é negar a ele sua metade instintiva - porque há um instinto, sim, que é da ordem do não-corporal.
Um instinto que exige resolver a pertença do homem a naturezas contrapostas através da harmonização em um ponto que se coloca para além do vôo cego que é a vida na contingência.