domingo, 8 de março de 2009

A FALHA DO PROJETO ILUMINISTA

O racionalismo iluminista representou uma guinada nos paradigmas conceituais da História Ocidental eurocêntrica, ao transitar da aceitação pura e simples da autoridade da Igreja Católica para o anseio pelo conhecimento com suporte em hipóteses racionais e comprovação experimental.

Desde que conjugado corretamente, o verbo conhecer teria o condão de levar a humanidade a vivenciar uma Idade das Luzes – assim reza a tradição que se iniciou com Descartes.

No entanto, cá estamos nós, os herdeiros da Aufklärung, a braços com a fome e os vermes, com os homeless e a crise financeira mundial, com a falta de sentido e com o vácuo de reflexão.

Se nos anos 60 e 70, a Guerra Fria era a responsável pelo receio da hecatombe nuclear, hoje vemos a própria Natureza assestar sua artilharia pesada não apenas contra o Homem, mas contra toda a vida do planeta.

Onde foi que falhamos?

Por óbvio, a culpa não pode ser imputada ao impulso absolutamente natural e salutar de buscar o conhecimento.

“Todos os homens por natureza tendem ao saber” – já dizia Aristóteles na abertura do Livro Alfa da Metafísica.

Mas o que nos aparta, hoje, na Modernidade, do desejo de saber dos gregos é a pouca disposição para reconhecer que a racionalidade permeia tudo o que existe, e não existe apenas no Homem; ou seja: existe uma razão objetiva no mundo.

Nesse sentido, aponta o diagnóstico de Max Horkheimer, em Eclipse da Razão:


“Durante longo tempo, predominou uma visão diametralmente oposta do que fosse razão. Essa concepção afirmava a existência da razão não só como uma força da mente individual, mas também do mundo objetivo: nas relações entre os seres humanos e entre as classes sociais,nas instituições sociais, na natureza e suas manifestações. Os grandes sistemas filosóficos, tais como os de Platão e Aristóteles, o escolasticismo e o idealismo alemão, todos foram fundados sobre uma teoria objetiva da razão (...) O grau de racionalidade de uma vida humana podia ser determinado segundo a sua harmonização com essa totalidade. (...) Esse conceito de razão jamais excluiu a razão subjetiva, mas simplesmente considerou-a como a expressão parcial e limitada de uma racionalidade universal, da qual se derivavam os critérios de medida de todos os seres e coisas.A ênfase era colocada mais nos fins do que nos meios.”
[1]

Tal maneira de ver o mundo conferia ao homem, portanto, um sentimento de pertencimento: o ser humano não era um bárbaro invasor no Universo, posto que o seu existir - e o de todas as coisas - era peça calculada de uma engrenagem cósmica. Esta liga entre todos os elementos do Cosmos – que Platão chamava de Eros - é que fazia com que o ser humano se sentisse comprometido com esse Todo.

É exatamente nesse compromisso com o Todo que repousa o limite da racionalidade subjetiva.


A mente humana anseia por categorizar, por leis que descrevam as regularidades do mundo.

Mas descrever as leis que regem as regularidades do mundo deveria representar o reconhecimento - no mundo - de uma racionalidade imanente, que não necessita se explicar a si mesma porque simplesmente é.

Daí a razão pela qual o pensamento oriental não é discursivo: o caminho do Oriente - complementar ao do Ocidente - anseia, ao contrário de nós... pelo silêncio...

A iluminação no Oriente não se dá através da razão discursiva, mas da razão contemplativa, tal como uma gota de água que, devolvida ao oceano, perde a sua identidade como gota e volta a se integrar ao Todo...

Renovo a pergunta: onde foi que falhamos?

Não falhamos, por certo, no ato de conhecer, mas em nossa atitude diante do conhecimento consumado, que foi posto à disposição da subjugação da Natureza, sem qualquer limite e em nome de interesses absolutamente desconectados de qualquer alteridade: nosso problema é de natureza ética.

Pelo fato de não havermos respeitado a racionalidade imanente da Natureza, ultrapassamos o limite do razoável: não criamos cultura, mas desrazão.

Acredito, no entanto, no movimento pendular da História, que tem no seu correlato oriental – o TAO TE KING – uma correspondência biunívoca: tudo traz em si o germe do seu oposto.

Talvez, estejamos próximos de mais uma guinada nos paradigmas conceituais da contemporaneidade...












[1] Horkheimer, Max. Meios e fins. In Eclipse da Razão. São Paulo: Centauro, 2002, pág. 10/11.

sábado, 7 de março de 2009

MAHATMA GANDHI

"A grandeza de uma nação pode ser julgada pelo modo com que seus animais são tratados."

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

NA ESTEIRA DE GUIMARÃES...

Enfim, tudo pronto. A vida encaixotada e preparada para a mudança.Sorri,ao lembrar de um conto de Guimarães Rosa: A terceira margem do rio. E se o destino fosse esse? Jamais chegar...permanecer eternamente na ... trajetividade?
Nossa lógica binária nos engana... sim ...nos engana...
Uma proposição não se resolve entre o sim e o não, entre o isso e o aquilo, entre o “a” e o “b”...inexorável que entre as afirmações categóricas e as negações peremptórias sejam admitidas infinitas possibilidades não contempladas...
Mas somos seres que anseiam por solidez e certezas... Queremos destinos seguros - a margem convencional de qualquer rio - desconsiderando totalmente o princípio fundante da mecânica quântica ...
De onde vem essa necessidade quase orgânica de contornos definidos ? Por que não perceber a vida como uma pintura impressionista ? Uma imagem meio desfocada, uma sugestão, uma linda e sedutora possibilidade... uma nuvem caprichosa que ora é um enorme gato deitado, olhando para o poente, ora um pássaro abrindo as asas para alçar voo...
Ai, a virtualidade confere requinte e poesia ao estar vivo... Arranca-nos ao hábito das consistências efêmeras e nos põe em sintonia fina com o processo inesgotável e contínuo da transmutação...
A terceira margem do rio está franquiada apenas a alquimistas...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

DEFINIÇÕES PRECISAS

Gosto da sonoridade da palavra ash...

Cinzas jogadas ao vento são exatamente isso: ash...

Poeira cósmica redimida em retorno à casa do Pai.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

MENSAGEM DE SEGURANÇA

Esteja alerta:
A vida ainda vai te assaltar

com todas as suas
cores...cores...cores...cores...

domingo, 18 de janeiro de 2009

UNIVERSOS PARALELOS

Sinto o vazio daquilo que
- de nós -
poderia ter sido ...

(Mas o vácuo
– tal como a lei da gravidade -
sempre foi uma constante na minha vida...)


Contemplo,
impotente,
o mundo de dentro de um espelho...
E sou
apenas nos limites da moldura,
...como uma maldição...


Nossos diálogos transversais
são formas sutis de não-dizer.


Apenas nos falamos
sob a mediação de um oculto narrador:

vã tentativa de contato
entre os mortos e os vivos
em sessão de mesa branca...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

THANATOS

Um inesperado silêncio vai tomando conta de mim... Como uma onda que chega sem violência, mas decisiva...

Aos poucos, entro em trabalho de parto para uma outra vida...

xxx

O telefone toca. A operadora de telemarketing quer falar comigo. Digo a ela que Renata Montechiaro morreu... A mulher – consternada – pede desculpas...

xxx

De fato, não sei dizer quantas peles já abandonei...

Não aspiro mais à risada escancarada: a alegria bacante do mundo já não me seduz... Mansamente, vou me apropriando de um jeito tranqüilo de apenas sorrir... e, a despeito disso, ser mais feliz do que eu era antes...

Não sei, na verdade, se construí meus caminhos ou se o chão se fez sob os meus pés, à revelia da minha vontade...Tenho a sensação de ter estado obedecendo a uma diretriz oculta, e essa parece ser a única certeza intuída que possuo.

A vida se impôs a mim...

Mas não sinto que isso haja violentado a Declaração Universal dos Direitos Humanos...

xxx

Se eu tivesse de fazer uma escolha hoje, sentaria em um rochedo acima do mar, faria uma oração de agradecimento ao Universo e mergulharia no oceano, para um encontro com o deus Netuno
.