segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

DEFINIÇÕES PRECISAS

Gosto da sonoridade da palavra ash...

Cinzas jogadas ao vento são exatamente isso: ash...

Poeira cósmica redimida em retorno à casa do Pai.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

MENSAGEM DE SEGURANÇA

Esteja alerta:
A vida ainda vai te assaltar

com todas as suas
cores...cores...cores...cores...

domingo, 18 de janeiro de 2009

UNIVERSOS PARALELOS

Sinto o vazio daquilo que
- de nós -
poderia ter sido ...

(Mas o vácuo
– tal como a lei da gravidade -
sempre foi uma constante na minha vida...)


Contemplo,
impotente,
o mundo de dentro de um espelho...
E sou
apenas nos limites da moldura,
...como uma maldição...


Nossos diálogos transversais
são formas sutis de não-dizer.


Apenas nos falamos
sob a mediação de um oculto narrador:

vã tentativa de contato
entre os mortos e os vivos
em sessão de mesa branca...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

THANATOS

Um inesperado silêncio vai tomando conta de mim... Como uma onda que chega sem violência, mas decisiva...

Aos poucos, entro em trabalho de parto para uma outra vida...

xxx

O telefone toca. A operadora de telemarketing quer falar comigo. Digo a ela que Renata Montechiaro morreu... A mulher – consternada – pede desculpas...

xxx

De fato, não sei dizer quantas peles já abandonei...

Não aspiro mais à risada escancarada: a alegria bacante do mundo já não me seduz... Mansamente, vou me apropriando de um jeito tranqüilo de apenas sorrir... e, a despeito disso, ser mais feliz do que eu era antes...

Não sei, na verdade, se construí meus caminhos ou se o chão se fez sob os meus pés, à revelia da minha vontade...Tenho a sensação de ter estado obedecendo a uma diretriz oculta, e essa parece ser a única certeza intuída que possuo.

A vida se impôs a mim...

Mas não sinto que isso haja violentado a Declaração Universal dos Direitos Humanos...

xxx

Se eu tivesse de fazer uma escolha hoje, sentaria em um rochedo acima do mar, faria uma oração de agradecimento ao Universo e mergulharia no oceano, para um encontro com o deus Netuno
.

domingo, 2 de novembro de 2008

EVANESCENTE

Todos os dias é preciso que eu me suicide um pouco.

Quero chegar ao fim já tendo conseguido volatizar boa parte do que sou.

Porque quanto menos de mim houver, mais fácil será enxergar o Absoluto.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

RENDIÇÃO

Talvez, seja hora de morrer.

Necessária uma longa preparação - talvez, toda uma vida - para saber morrer. Mas a gente se esquece disso...

Vejo que preciso afastar de mim todos os meus desejos irrealizados e sabê-los, de alguma forma, o caminho no aprendizado da dor...

Porque para transcender a dor é preciso transcender o próprio desejo...

É preciso, pois, não desejar...

Aspiro à morte em um dia nublado... propício à introspecção e ao silêncio...

(Quem sabe, em dia de primavera atípica e neurótica, onde a explosão das flores cedeu lugar a frentes frias intempestivas...)

Desisti de pedir socorro.

Sei que a vida não terá misericórdia de mim, por isso, submeto-me àquilo que é apenas necessário.

Estou entregue e desarmada.

Agora estou em paz...

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

FLORES DE OUTONO

De longe, eu observava a árvore fatídica que, todos os anos, despida e esgalhada, era para mim, como um grito de socorro desenhado no ar.

Quantos outonos fora preciso suportá-la ?
Não havia, de minha parte, nenhuma compaixão por sua angústia muda e vegetal.

Na verdade, aquela árvore – que , de alguma forma, me incomodava – nascera no meu jardim à revelia de qualquer ato meu: eu não a tinha plantado, e ela se soerguera defronte à minha casa, sem sequer me pedir licença.

Às vezes, eu não podia evitar a idéia absurda de que ela havia nascido nos meus domínios intencionalmente, dotada de um livre arbítrio único e exclusivo.

Diante dela, eu me sentia vagamente humilhada. Como alguém que intuísse no comportamento de uma criança uma superioridade que tornasse ridículo o encargo de ser seu mestre.

Acho que ela sabia que era odiada. E ainda assim resistia, magnânima o suficiente para ignorar minha hostilidade e continuar ... me amando.
Porque ela me amava, a mim, que de bom grado a teria arrancado pela raiz...

Amava-me, causando-me todos os anos este desconforto vago e insubsistente... o mesmo que me causaria a sinceridade excessiva de um amigo...

A árvore parecia cobrar de mim – ser racional (?) – a coragem de viver. De enfrentar as perdas. De abandonar todos os referenciais e renascer do nada. Como ela própria, em sua sabedoria genética, aprendera a fazer.

Submetida dócil e serenamente aos ritmos da contração e da expansão, do morrer e renascer contínuos, ela me dizia: “vive, mulher, foi para isso que nasceste. Não sejas menor do que eu”.

No dia em que consegui entender isto – eu, que era incapaz de jogar objetos inúteis fora por uma necessidade doentia de sedimentação – pus-me à sua frente no jardim, e tal como ela, fiquei nua, cercada de folhas secas.

Éramos, então, apenas substância.

Duas entidades vivas, em essência pura, uma diante da outra, prescindindo de tudo quanto fosse acessório na crise cósmica do Outono.

A nossa identificação foi tão absoluta, que eu já não sabia mais se era uma árvore ou uma mulher.